Henry e Gustav


Um professor meu da faculdade, costumava dizer que qualquer  bom profissional(   de qualquer atividade/oficio ,diletante ou não), era em primeira instancia um bom “fuçador” e pesquisador do assunto em questão.

Numa Era em que a digitalização das informações tornou o conhecimento paradoxalmente tão próximo de um clique ,que se torna utópico , (dado a confusão que se apresenta na rede) fazer paralelos e ligações se torna vital para dar seqüência a nossos atos e pensamentos.

Lembro-me até hoje em ter comprado a  primeira edição do “Fabulario Geral do Delirio Cotidiano” do Bukowski ,que se tornou uma espécie de referencia  para minha vida e arte. A famosa capa onde Buk pegava na cintura de uma “moça da vida” e segurava uma garrafa de cerveja num quarto bagunçado, já dava a entender aonde a coisa ia e de onde ele vinha. Devorei  tudo que pude de sua obra(mesmo a parte ainda não traduzida, incluso seus poemas).Me poupou uma boa grana de terapia e analise, dada a força ,luz, leveza e ,acima de tudo, humor lúcido e sadio que emana de sua escrita

A partir da obra de Buk tomei gosto por outros escritores  que ele citava como: Hemingway ,poetas chineses clássicos e principalmente  John Fante, sua maior influencia declarada.

Mas o fato é que outra grande referencia musical em minha vida veio das citações de Bukowski:  Gustav Mahler, aquele que foi talvez a ponte final que se rompeu para o fim das amarras tonais.O alter ego de Sigmund Freud na musica, o desbravador das camadas do inconsciente  através das suas camadas densas de orquestrações , onde os detalhes da musica refletiam a busca da essência e drama da existência humana...

Cada vez mais vejo (antes de tudo como fã da arte ...) uma busca pragmática típica de nossa tecnocracia  ,onde o espírito fica secundário em relação a arte , num momento onde a fama é o destino de desejo da maioria do rebanho, cada vez mais histérico e fútil.

Inspiração, força , verdade e muita vida é o que se encontra de sobra na obra destas duas verdadeiras instituições; Buk e Mahler.

Segue abaixo o primeiro movimento da Sinfonia numero um de Mahler, regência do maestro Claudio Abbado, no meu humilde entender, quem melhor resolveu a regência de sua obra.


Enjoy.....

O mundo precisa de mais Chaplins e Keith Moons....



 Este texto tem uns bons anos...mas ainda representa muito da minha visão do Mundo...


Inverno meio prolongado, baixas temperaturas, gripes e muitos momentos de reflexão sobre a vida.

O colunista da Folha e editor do Fantástico ,Álvaro Pereira , definiu o belo e triste 21 Gramas, como sendo um filme que fotografa, de maneira precisa, a tristeza e desesperança de nossos dias... bela e contundente colocação.

Nunca se viu tanto desespero e falta de perspectiva nos dias e noites da espécie humana.

Culpa, será de quem? Do excesso de expectativa que colocamos aqui nos vales de silício, na globalização e no materialismo crasso , que virou a nova religião e culto desta era, marcada pela veneração ao poder e dominação em pequenos e grandes lugares, por pequenas e grandes pessoas?

Charlie Chaplin, um dos primeiros workaholics da era da comunicação, era um gênio, cuja imagem de Carlitos evoca nas pessoas sentimentos puros , camuflados e dispersos nos nossos "Tempos Modernos".

Em minha vida devorei tantas biografias do Who que, às vezes, sinto que sua vida e obra preencheram tanto a minha quanto a de qualquer meu familiar.

Lendo a bela "Who Chronycles", nestas férias(valeu Dulce!), o sentimento similar à figura de Carlitos foi evocado ao rever a figura de Keith Moon.

Considerado,além de gênio maluco da bateria, Moon, melhor que ninguém, personificou o palhaço no circo do rock’n roll; segundo o próprio Towshend, Keith seria capaz de botar fogo em si mesmo, se isso servisse para alegrar alguém ou arrancar risos de uma platéia.

É impossível permanecer estático ao rever os clássicos vídeos das apresentações do Who em Monterey e na Ilha de Wigth , em suas hilárias entrevistas ,em documentários, dando peidos (ao vivo e em cores) e explodindo baterias ; a figura de Moon é tão forte quanto à de Carlitos ou de qualquer gênio da comédia, seja Totó, Groucho Marx , Ugo Tognazzi ou Graham Chapman.

Meu Deus!!! Estará o mundo fadado a ser uma geração de "robozinhos-humanos" que encaram a vida como um mapa programado em busca do sucesso e triunfo, em que drama, humor, risos e lágrimas , os quais caracterizam o belo caos da existência humana, estão sendo substituídos pela previsibilidade?

Que os anjos nos tirem dessa roubada.....

M.O. 16/8/04 1:00 P.M.